Se você acha normal uma menina de 12
anos usar um monte de pulseiras coloridas que, arrebentadas, a obrigam a dar um
beijo ou transar, é bom parar de ler esta página. Porque é evidente que ela não
tem discernimento algum sobre essa brincadeira inconsequente. E, se tiver, como vai dizer não ao coleguinha? Você se lembra bem de
como era duro ser adolescente e ficar de fora da brincadeira da moda,
arriscando ser tratada como lixo pela “turma”. Então é melhor mesmo generalizar
e proibir essa infâmia.
Muitos pais, depois de ler vários
manuais de bobagens, têm medo de dizer não aos filhos por medo de cercear sua
individualidade e criar adultos reprimidos, como aprendeu a geração 70, filhos
da ditadura e dos divãs dos psicanalistas. Diante do meu espanto com as paredes
de sua sala de estar completamente imunda e pichada, uma conhecida disparou: “A
Pituquinha é muito artística e a psicóloga disse que não deveríamos proibi-la
de pintar nada para não inibir sua criatividade”. Será que a mãe de Monet o
deixava pintar a sala de casa e não o obrigava a guardar direitinho os pincéis
na caixa em que os encontrou?
Não que eu defenda os pais tiranos,
longe de mim. Tem gente que flerta com a loucura ao proibir tudo: dormir na
casa do amiguinho, usar um pé de tênis diferente do outro, ir para a matinê com
todos os colegas. Mas é preciso saber dosar: não há o menor problema em querer conhecer os pais do amiguinho que
vai hospedar seu filho, exigir que ele telefone de vez em quando, vesti-lo e
penteá-lo apropriadamente para ir ao colégio (até porque, no futuro, seu chefe
não gostará de vê-lo com um pé de cada cor), buscá-lo na matinê para ver que
turma é aquela — e fuxicar sempre o Facebook dele, lógico.
E, se um dia, seu filho contestar uma
regra imposta — e ele há de contestá-la, pode aguardar — para certas
perguntas ainda não inventaram resposta melhor do que “não porque não; a casa é
minha, que eu pago as conta e aqui mando eu”. Como era bom o tempo em que
nossos pais gritavam para apagar as luzes porque eles não eram sócios da Light.
Ou quando ameaçavam nos colocar para fora de casa se não chegássemos na hora
determinada. No futuro, quando seu filho for confrontado a uma situação cuja
solução depende de disciplina, você será lembrado não apenas pelo que lhe deu,
mas pelo que lhe negou.
Uma criança familiarizada aos limites
tem grandes chances de ser um adulto consciente de que o mundo não lhe deve
nada; que é preciso correr atrás para conquistar aquilo que se deseja; que sua
liberdade termina onde começa a do outro; e que o outro não é obrigado a ceder a seus
caprichos e vontades.
Também saberá que ninguém é de
ninguém; que as pessoas que entram em sua vida não fazem parte de uma corte
pronta para servi-lo; que ele não tem controle sobre todas as coisas e sobre os
sentimentos alheios; e que, por mais que seja traído ou enganado, não pode sair
por aí fazendo — literalmente — picadinho de seres humanos. Está aí
outra educação negligenciada, a emocional. Nesse mundo novo de relacionamentos
frágeis, em que um casamento pode durar dez anos ou dez dias, em que se pede um
divórcio como se vai à feira, uma criança deve também ser iniciada na arte
do desapego
afetivo, porque só quem recebeu muito não na
vida é capaz desuperar
uma desilusão amorosa e estar pronto para outra.
Na educação das crianças, é preciso
bom senso, como em tudo na vida. E estabelecer regras claras, explicando por
que os limites
existem e, obviamente, punindo quando
eles são rompidos. Porque a vida é duríssima e todo mundo um dia acaba pagando
por suas faltas — menos os políticos, é claro.
10 DE JUNHO DE 2012 | 12:00 | CRÔNICA |
http://colunas.revistaepoca.globo.com/brunoastuto/2012/06/10/seu-filho-merece-um-nao/
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